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terça-feira, 17 de novembro de 2015

A Vida Emocional dos Animais - Extrato I

“Precisamos de uma ética sem limites que inclua também os animais (…) Está a chegar o tempo em que as pessoas ficarão admiradas por a raça humana ter existido tanto tempo sem ter reconhecido que o prejuízo impensado à vida é incompatível com uma verdadeira ética. A ética na sua forma não qualificada alarga a sua responsabilidade a tudo o que tem vida” – Albert Schweitzer.

Aqui fica um primeiro extrato do fantástico livro de Marc Bekoff, PhD, “A Vida Emocional dos Animais – A importância da alegria, da tristeza e da empatia dos animais estudada por um cientista”.

Devemos refletir sobre o facto de muitos animais sentirem paixão e sofrimento – sentem amor e dor – e depois considerar todos os modos com que tratamos atualmente os animais na nossa sociedade e decidir o que está certo e o que está errado. Quando reconhecemos algo que está errado devemos trabalhar para mudar.

Os animais são companheiros com quem partilhamos as nossas casas. São o nosso alimento. Estão em exibição nos nossos jardins zoológicos e enchem os nossos laboratórios de investigação científica. Também vivem “livremente” no seu ambiente natural, nas margens de uma civilização humana que os invade constantemente. Precisamos de olhar para todas essas áreas e decidir se estamos a cuidar devidamente dos animais. Frequentemente, não cuidamos e, como sociedade, temos muitos motivos para termos vergonha pela forma como interagimos com outros animais. Precisamos de mais verificações e balanços nas nossas interações. Subestimamos e silenciamos os sentimentos por rotina.

A existência de sentimentos é a principal razão para cuidarmos melhor dos animais. As questões que dizem respeito aos sentimentos são importantes e extremamente difíceis, mas também temos de distinguir entre sentimento e saber. O bem-estar centra-se no que os animais sentem, não no que sabem. Será que realmente importa se os macacos num jardim zoológico, as ratazanas num laboratório ou as vacas numa quinta alguma vez entendem o que se está a passar à sua volta, ou o que os seres humanos lhes estão a fazer, se conseguem sentir dor e sofrer? Os animais nestas situações dependem completamente de nós e o seu comportamento diz-nos quando estão saudáveis e felizes, ou tristes e a sofrer. Os animais não conseguem ligar para o 112 numa emergência; dependem da nossa boa vontade e compaixão. Embora os animais não possam consentir na forma como são tratados, protestam certamente publicamente quando estão a sofrer. A sua dor é fácil de ver e é ignorada demasiadas vezes.
(…)
Contudo, saliento que muitas vezes aquilo que passa por “bom cuidado” na nossa sociedade simplesmente não é suficiente. Os seres humanos fazem muitas vezes distinções entre a forma como tratam os animais “espertos” e os animais “burros” e, especialmente em contextos institucionais, o cuidado dos animais habitualmente deteriora-se quando se torna menos conveniente (ou seja, menos rentável ou um impedimento ao “progresso”). Isto não é bom que chegue. Precisamos de prestar o melhor cuidado a todos os animais constantemente e trabalhar no sentido de não os usarmos de todo.
(…)
No que se refere às nossas relações com os animais, a nossa visão de quem eles são e o que significam para nós exige que mudemos a forma como sempre os tratámos. Sabemos que os seres animais não são “coisas” que existem para nossa conveniência. Os animais são seres subjetivos que têm sentimentos e pensamentos e merecem respeito e consideração. Não temos o direito de os subjugar ou dominar para nosso proveito egoísta – para melhorar as nossas vidas piorando as dos animais. Além disso, sendo nós próprios seres com consciência de nós próprios e com sentimentos, conseguimos reconhecer o sofrimento e somos obrigados a diminuí-lo sempre que pudermos. Ao tomar decisões que ajudam os animais, acrescentamos compaixão e não crueldade a um mundo “ferido”, como lhe chama o ecologista Paul Ehrlich.


sábado, 1 de novembro de 2014

Sim, os Animais Pensam!

Os animais pensam? “Of course they do. How could they not think and manage to survive in the world?” - Marc Hauser, Professor de Psicologia em Harvard.

No outro dia fui a uma aula de treino canino, supostamente baseada em métodos científicos de ensino, em que o formador começou por perguntar quem dos presentes achava que os cães pensam. Alguns (muito poucos, entre os quais me incluo) levantaram prontamente a mão em sinal de resposta afirmativa. Logo de seguida, o formador disse que não, que estávamos errados, que os cães não pensam, de maneira nenhuma, mas que apenas aprendem por instinto.

Não sou investigadora (já fui, há uns bons anos, bolseira de investigação, mas na área de fitotecnia), nem neurocientista, mas leio a respeito deste e outros temas, e atrevo-me a afirmar que os cães pensam… melhor, os animais pensam.

Os livros de António Damásio (neurocientista) referem que os animais experienciam emoções e sentimentos, e que pensam.

“(…) o facto de um dado organismo possuir uma mente significa que ele forma representações neurais que se podem tornar em imagens que são manipuladas num processo chamado pensamento, o qual acaba por influenciar o comportamento em virtude do auxílio que confere em termos de previsão do futuro, de planificação (…) e da escolha da próxima ação” – em O Erro de Descartes.

Recentemente, começou a ser utilizada no estudo do comportamento e emoções dos cães uma técnica não invasiva, a ressonância magnética funcional, tendo-se chegado à conclusão que o cérebro dos cães funciona como o cérebro humano, partilhando as mesmas estruturas básicas e incluindo uma região cerebral associada com emoções positivas.

“Espantosamente” (para mim não é espanto nenhum), já em 1983 Konrad Lorenz (etólogo) tinha mencionado que a mente animal, nos seus mecanismos mais íntimos, era semelhante à nossa.

Para a comunidade científica já não se trata de perguntar se os animais pensam, mas como pensam. Os animais poderão ter processos mentais diferentes dos nossos, mas não há dúvida que pensam.

Nicholas Dodman (médico veterinário) refere o seguinte: “Em relação aos animais, a inteligência, as emoções e a consciência de si próprio sempre foram temas altamente controversos que levaram séculos de debate relativamente infrutífero, até agora. Nos últimos quinze anos, continuaram a surgir evidências que apoiam a convicção de que os animais são seres pensantes e sencientes, que se apercebem das suas circunstâncias e estados emocionais, bem como os de outros”.

Admitir e aceitar esta realidade implica que muitas das atitudes do chamado “ser humano” para com os animais sejam muito mais censuráveis e inadmissíveis.



Fontes:
Damásio, António (1994), O Erro de Descartes – Emoção, razão e o cérebro humano, Círculo de Leitores.
Dodman, Nicholas (2002), Só lhes falta falar – Histórias de cães, de gatos e das suas pessoas, Pergaminho.
Lorenz, Konrad (1983), E o Homem encontrou o Cão, Relógio d’Água.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Emoções e Sentimento – Parte II

À medida que se desenvolvem e interagem, os organismos ganham experiência factual e emocional com diversos objetos e situações do ambiente, tendo assim oportunidade de associar muitos objetos e situações que poderiam ter permanecido emocionalmente neutros, com os objetos e as situações que causam emoções naturalmente. A forma de aprendizagem conhecida por condicionamento é uma das maneiras de obter esta associação.

A infiltração da emoção no nosso desenvolvimento e na nossa experiência quotidiana, liga virtualmente qualquer objeto ou situação da nossa experiência, pela força do condicionamento, aos valores fundamentais da regulação homeostática: recompensa ou castigo; prazer ou dor; aproximação ou afastamento; vantagem ou desvantagem; e, inevitavelmente, bem (no sentido de sobrevivência) ou mal (no sentido de morte).

A emoção e o mecanismo biológico que lhe é subjacente são os companheiros obrigatórios do comportamento, consciente ou não.
Um exemplo: quando em presença de uma fonte de alimento ou sexo um animal desenvolve um comportamento de aproximação e exibe manifesta alegria; bloquear o seu caminho e impedi-lo de conseguir os seus objetivos causará frustração e até zanga, uma emoção muito diferente da felicidade. O indutor da zanga não é a expetativa de comida ou do sexo, mas sim do impedimento do comportamento que conduzia o animal para o consumar da boa expetativa. Outro exemplo seria a suspensão súbita de uma situação de castigo, o que induziria bem-estar e até alegria.

De facto, podemos encontrar a configuração básica das emoções nos organismos simples, mesmo nos organismos unicelulares, e até somos capazes de atribuir determinadas emoções, como a felicidade, o medo ou a cólera, a criaturas muito simples. Fazemos essas atribuições de emoção baseando-nos apenas nos movimentos do organismo, na velocidade de cada ato, no n.º de atos por unidade de tempo ou no estilo dos movimentos. Tal deve-se a que a emoção, como o nome indica, tem a ver com o movimento, com um comportamento tornado externo, com certas orquestrações de reações a uma dada causa, num dado meio ambiente.

Um dos seres vivos que mais contribuiu para o progresso da neurobiologia é um caracol marinho Aplysia californica. Têm sido realizados grandes avanços no estudo da memória utilizando este caracol gigante que pode não ser dotado de uma grande inteligência, mas tem numerosos comportamentos interessantes e um sistema nervoso decifrável do ponto de vista científico. O Aplysia não tem sentimentos como nós, mas tem qualquer coisa que não é dissemelhante das emoções.

Dor e prazer fazem parte de duas genealogias diferentes da regulação vital. A dor está alinhada com o castigo e associada com comportamentos como o recuo e a imobilização. O prazer está alinhado com a recompensa e associado a comportamentos como a curiosidade, a procura e a aproximação.

O castigo leva os organismos a fecharem-se sobre si mesmos, imobilizando-se e retraindo-se do seu meio ambiente. A recompensa leva os organismos a abrirem-se para o exterior, explorando os seus limites e, ao fazê-lo, aumentando simultaneamente, tanto a sua capacidade de sobrevivência, como a sua vulnerabilidade.
Esta dualidade fundamental é manifesta numa criatura tão simples e tão não-consciente como a anémona-do-mar. A essência da alegria e da tristeza, da aproximação e da fuga, da vulnerabilidade e da segurança, são visíveis na simples dicotomia do seu comportamento.


Bibliografia: Damásio, António (2000), O Sentimento de Si - O Corpo, a Emoção e a Neurobiologia da Consciência, Publicações Europa-América.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Emoções e Sentimento – Parte I

À primeira vista não existe nada de caracteristicamente humano nas emoções, uma vez que é bem claro que os animais também têm emoções. No entanto, há qualquer coisa de muito característico no modo como as emoções estão ligadas às ideias, aos valores, aos princípios e aos juízos complexos que só os seres humanos podem ter.

O que são as emoções?
As emoções são conjuntos complicados de respostas químicas e neurais que formam um padrão. Todas as emoções desempenham um papel regulador que conduz à criação de circunstâncias vantajosas para o organismo, sendo a finalidade das emoções ajudar o organismo a manter a vida.

A palavra emoção abrange uma das 6 emoções primárias ou universais: alegria, tristeza, medo, cólera, surpresa ou aversão. Existem outros comportamentos aos quais tem sido atribuído o rótulo emoção, onde se incluem as emoções secundárias ou sociais(vergonha, ciúme, culpa ou orgulho) e as emoções de fundo (bem-estar ou mal-estar, calma ou tensão).

Função biológica das emoções
A função biológica das emoções é dupla. A primeira função consiste na produção de uma reação específica para a situação indutora. Por exemplo, num animal a reação pode consistir na fuga (flight), na imobilização (freezing), no ataque de um inimigo (fight) ou no adotar de um comportamento agradável. Nos seres humanos, as reações são essencialmente as mesmas mas temperadas, espera-se pela razão e pela sabedoria.

A segunda função biológica da emoção é a regulação do estado interno do organismo de forma que possa estar preparado para essa reação específica. Por exemplo, um aumento da circulação de sangue nas artérias das pernas para que os músculos recebam mais oxigénio e glucose, no caso de uma reação de fuga, ou uma mudança dos ritmos cardíacos e respiratório, no caso de uma reação de imobilização.

O objetivo biológico das emoções é evidente e as emoções não constituem um luxo supérfluo. As emoções são curiosas adaptações que fazem parte integrante do mecanismo através do qual os organismos regulam a sua sobrevivência. As emoções são inseparáveis da ideia de recompensa ou de castigo, de prazer ou de dor, de aproximação ou afastamento, de vantagem ou desvantagem pessoal.
Para espécies menos complicadas que os seres humanos, assim como para os seres humanos distraídos, as emoções produzem comportamentos bastante razoáveis sob o ponto de vista da sobrevivência.


Bibliografia: Damásio, António (2000), O Sentimento de Si - O Corpo, a Emoção e a Neurobiologia da Consciência, Publicações Europa-América.