terça-feira, 19 de agosto de 2014

Formas de crânio dos cães

Dolicocefálico: a cabeça, particularmente o focinho, é alongada e estreita, e.g. Galgo Afegão, Galgo Inglês.

Mesaticefálico: é a forma mais comum de crânio nos cães (“mes” significa “meio”), e.g. Beagle, Labrador, Pointer.

Braquicefálico: o crânio é mais arredondado e o focinho é curto (câmaras nasais e mandíbulas mais curtas), e.g. Bulldog, Boxer, Pug.

A forma do crânio, principalmente em raças braquicefálicas, pode levar a uma variedade de condições clínicas, como respiração difícil e ruidosa (o que pode causar problemas de comunicação entre cães e ter como consequência ataques), bem como dificuldades no parto, sendo necessária assistência médica.
 
 
Bibliografia: Introduction to veterinary anatomy and physiology textbook, 2009.

domingo, 10 de agosto de 2014

Treino com Clicker

O treino com clicker é um método baseado em psicologia comportamental que assenta na marcação do comportamento pretendido e recompensa do mesmo, através de um pedaço de comida, atirar uma bola, um passeio no exterior, etc.

Essa marcação do comportamento pode ser efetuada pelo uso de um clicker, um dispositivo mecânico com uma patilha em metal, que quando pressionado emite um som curto e distinto, e assim indica exatamente ao animal quando está a fazer a coisa certa.


Atualmente, já existem clickers eletrónicos que emitem vários tipos de sons e que permitem regular a intensidade do click. Também existem outros tipos de marcadores de comportamento, por exemplo: treinadores de golfinhos usam apitos; para treinar peixes usam-se marcadores luminosos.

Esta forma de comunicação é muito clara e, quando combinada com reforço positivo, é uma forma eficaz e segura de ensinar qualquer animal, qualquer comportamento que o mesmo seja física e psicologicamente capaz de realizar.

Podem ser usadas palavras para treinar um animal, mas a vantagem do clicker, ou outro marcador mecânico, é a consistência e timing facilmente reconhecível. Até treinadores principiantes conseguem determinar se clicaram durante o comportamento pretendido ou um pouco tarde demais, sendo difícil de fazer essa distinção quando se usam palavras.

Verifica-se que o treino com clicker permite acelerar o processo de aprendizagem, diminuir o stress e tornar a experiência mais divertida, tanto para o animal, como para a pessoa que o está a treinar.

Fonte: Karen Pryor, http://www.clickertraining.com/

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Declaração de Curitiba afirma que os animais não podem ser tratados como coisas

Um dos maiores legados que o III Congresso Brasileiro de Bioética e Bem-estar Animal deixa é a Declaração de Curitiba, que oficializa a posição de seus signatários de que os animais não humanos não são objetos, mas seres capazes de sentir dor e prazer e que, por isso, não podem ser tratados como coisas.

A ideia para a redação do documento surgiu durante uma conversa entre dois especialistas brasileiros e um norte-americano, que avaliavam o conteúdo das discussões apresentadas no congresso: o neurocientista Philip Low,  que idealizou a Declaração de Cambridge sobre a consciência em animais; a médica veterinária Carla Molento; e o advogado Daniel Braga Lourenço. Os três chegaram à conclusão de que o congresso deveria produzir uma declaração e juntos escreveram a Declaração de Curitiba:

“Nós concluímos que os animais não humanos não são objetos. Eles são seres sencientes. Consequentemente, não devem ser tratados como coisas”, Curitiba, 7 de agosto de 2014.

“Fomos muito além das expetativas nestes três dias únicos, em termos de desenvolvimento científico e de integração, já que a Declaração de Curitiba terá um potencial muito grande para auxiliar nas ações relativas aos animais em todas as esferas, sejam elas científicas ou educacionais”, comemorou a Dra. Carla Molento, que integra a Comissão de Ética, Bioética e Bem-estar Animal, do Conselho Federal de Medicina Veterinária  (CFMV).

A Declaração de Curitiba reforça a ideia de que os animais não podem ser tratados como propriedade de alguém. Philip Low refere: “Ela (a Declaração de Curitiba) é importante por ser o limite para quem faz as leis, que devem refletir sobre a forma como os animais devem ser tratados. Isso não é uma declaração de cientistas, é um contrato”, enfatiza o neurocientista.


Fonte: http://portal.cfmv.gov.br/portal/noticia/index/id/3912.

Pelo meu mundo... Nova casa e Vet, ou vice-versa?

Saímos do canil e o meu novo humano John diz-me para entrar naquela máquina com rodas. Yes! Passeio!
E foi assim que fui adotado, após 3 meses a viver no canil da associação com os outros patudos. Alguns já vivem no canil há vários anos e anseiam o dia em que algum humano olhe para eles e os veja com olhos de ver, e os leve para casa. Merecemos todos tanto!

Quando chegamos à casa nova estavam à minha espera a menina e outra humana que a segurava ao colo. Assim que me viu, a menina olhou com muita atenção e alegria para mim, apontou e disse: "Pinóquio!"
*Ah, o meu nome era Pinóquio*
Antes de entrarmos na casa, que o meu focinho estava ansioso por explorar, o John diz que o melhor era irmos primeiro ao Veterinário para ter a certeza que estava tudo bem comigo.
*Quando estava no canil conheci uma vez o tal do Veterinário. Deu-me uma pica e não achei piada nenhuma ao encontro*
Entramos todos no veículo e, desta vez, o John colocou-me uma trela diferente que me prendia ao assento da parte detrás, a que ele chamou de "cinto de segurança para cães". Parece que é mais seguro usar essa coisa quando passeamos em cima de rodas.

Chegamos a um edifício que tinha umas letras grandes por cima da porta. Pelas janelas envidraçadas viam-se pessoas de batas brancas e azuis, a andar de um lado para o outro. O John disse que era o Hospital Veterinário onde tratavam muito bem de bichinhos como eu e onde havia muitos biscoitos saborosos.
Entramos e veio logo uma senhora de bata azul dar-me dois biscoitos *nham nham... engoli-os tão depressa que quase nem lhes senti o gosto. Mais?...* 

Pouco tempo depois chamaram o meu nome: "Pinóquio, ao gabinete de consultas externas".
Aí, comecei a sentir um friozinho na barriga e as minhas patas pareciam ter vontade própria e não se moviam nem por nada. Foi aqui que o John resolveu pegar em mim e levar-me ao colo para dentro do tal gabinete.

Lá dentro aguardava o Dr. Veterinário, de bata branca, ar sorridente e voz meiga, que afinal não era o mesmo do canil *Parece que afinal os veterinários são vários e estão espalhados pelo País* 
Pegaram em mim e colocaram-me em cima de uma mesa alta, cinzenta e fria, que escorregava um bocado.

O Dr. Vet apalpou-me por todos os lados, espreitou para dentro das minhas orelhas, abriu-me a boca e meteu a cabeça lá dentro, viu-me as patas e cortou-me as unhacas, enfiou-me um tubo fininho no traseiro... Ui! Olhou depois para o tal tubo com muita atenção e concluiu que eu estava bem de saúde, mas que tinha muitas pulgas e carraças.

O Dr. Vet pegou então numa pinça de metal e cuidadosamente tirou-me as carraças uma a uma, depois de colocar um algodão embebido num líquido em cima de cada uma delas. Uma, duas... dez... vinte e três... trinta e nove! *Tinha 39 daqueles seres sugadores agarrados a mim? Blhac!*
Recomendou ao John um produto específico para cães, que vem em pipetas, para acabar com as pulgas e evitar que apanhe outros parasitas externos. Perguntou ao John se tinha gatos e avisou-o que este produto é tóxico para os mesmos.

De seguida, apanhou-me distraído com a conversa e enfiou-me um raio de um comprimido pelas goelas abaixo. Parece que é para bicharocos internos, i.e. parasitas internos.
Pensava eu que já estava despachado e o Dr. Vet vira-se com uma seringa na mão! Espeta-me aquela coisa com cuidado e dá-me as tais das vacinas que me vão fazer forte para combater muitas doenças.
*Apesar do aspeto assustador, a pica nem me doeu quase nada, o Dr. Vet tinha jeito para a coisa*

No fim desta minha aventura hospitalar, o Dr. Vet elogiou-me muito, disse que me tinha portado muito bem e que tinha ficado muito quietinho *Tomara! Estava com tanto medo que mesmo que quisesse não me conseguiria mexer 1 milímetro!*

Deram-me mais dois biscoitos e três festinhas e fomos para casa!
*Aqueles biscoitos eram tão apetitosos que nem me importo muito de lá voltar um dia*

Finalmente, entro na minha casa nova e o John mostra-me a minha caminha nova e fofinha, os meus brinquedos novos, coloridos e divertidos (uma cenoura de borracha que apita quando a mordo, um boneco felpudo, uma bolinha e um osso de pele saboroso para eu roer à vontade). Fico também a saber onde estão a minha água e comida saborosa.

Nessa noite dormi um sono profundo e sonhei com os meus amigos patudos do canil. Estavamos todos a correr e a brincar num grande jardim, cheio de aromas variados e fascinantes. Que sonho bom!

(continua)

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Sinais de Calma

Os sinais de calma são utilizados pelos cães na tentativa de acalmar um agressor, mostrando o desejo de evitar conflitos, em situações que não conseguem ou não podem controlar, tais como situações de medo, dor ou mal-estar, quando são corrigidos ou abordados num tom mais agressivo.
 
Há uma panóplia de sinais utilizados para este fim, nomeadamente:
  • Colocar a cabeça de lado;
  • Desviar o olhar;
  • Cerrar ligeiramente os olhos;
  • Pestanejar excessivo;
  • Girar sobre si e oferecer o flanco (acontece principalmente quando um dos cães que está a brincar deseja diminuir a intensidade da brincadeira);
  • Lamber os lábios;
  • Imobilização e deslocação lenta;
  • Vénia ligeiramente diferente à de solicitação de brincadeira, que se prolonga por mais tempo;
  • Deitar-se mostrando a barriga;
  • Bocejar (maioritariamente quando o cão se encontra inseguro, com medo ou desconfortável);
  • Cheirar o chão (deve ter-se em atenção o contexto, é sinal de calma quando exibido devido à aproximação de um estímulo que deixa o animal desconfortável);
  • Interpor-se fisicamente entre cães ou pessoas;
  • Abanar a cauda lentamente numa posição baixa;
  • Lamber a boca de outro cão.
De referir que ao interpretar a exibição de sinais de calma, deve-se ter em consideração o contexto, uma vez que, muitos destes comportamentos podem ser demonstrados noutras ocasiões.
 
Bibliografia: 
Guimarães, I. M. (2013), Comportamento do Cão no Ato de Consulta Medico-Veterinária Profilática, Dissertação de Mestrado Integrado em Medicina Veterinária, Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade Técnica de Lisboa.
Rugaas, T. (2005), El Lenguaje de Los Perros: Las Señales de Calma, Coruña, KNS.

Emoções e Sentimento – Parte II

À medida que se desenvolvem e interagem, os organismos ganham experiência factual e emocional com diversos objetos e situações do ambiente, tendo assim oportunidade de associar muitos objetos e situações que poderiam ter permanecido emocionalmente neutros, com os objetos e as situações que causam emoções naturalmente. A forma de aprendizagem conhecida por condicionamento é uma das maneiras de obter esta associação.

A infiltração da emoção no nosso desenvolvimento e na nossa experiência quotidiana, liga virtualmente qualquer objeto ou situação da nossa experiência, pela força do condicionamento, aos valores fundamentais da regulação homeostática: recompensa ou castigo; prazer ou dor; aproximação ou afastamento; vantagem ou desvantagem; e, inevitavelmente, bem (no sentido de sobrevivência) ou mal (no sentido de morte).

A emoção e o mecanismo biológico que lhe é subjacente são os companheiros obrigatórios do comportamento, consciente ou não.
Um exemplo: quando em presença de uma fonte de alimento ou sexo um animal desenvolve um comportamento de aproximação e exibe manifesta alegria; bloquear o seu caminho e impedi-lo de conseguir os seus objetivos causará frustração e até zanga, uma emoção muito diferente da felicidade. O indutor da zanga não é a expetativa de comida ou do sexo, mas sim do impedimento do comportamento que conduzia o animal para o consumar da boa expetativa. Outro exemplo seria a suspensão súbita de uma situação de castigo, o que induziria bem-estar e até alegria.

De facto, podemos encontrar a configuração básica das emoções nos organismos simples, mesmo nos organismos unicelulares, e até somos capazes de atribuir determinadas emoções, como a felicidade, o medo ou a cólera, a criaturas muito simples. Fazemos essas atribuições de emoção baseando-nos apenas nos movimentos do organismo, na velocidade de cada ato, no n.º de atos por unidade de tempo ou no estilo dos movimentos. Tal deve-se a que a emoção, como o nome indica, tem a ver com o movimento, com um comportamento tornado externo, com certas orquestrações de reações a uma dada causa, num dado meio ambiente.

Um dos seres vivos que mais contribuiu para o progresso da neurobiologia é um caracol marinho Aplysia californica. Têm sido realizados grandes avanços no estudo da memória utilizando este caracol gigante que pode não ser dotado de uma grande inteligência, mas tem numerosos comportamentos interessantes e um sistema nervoso decifrável do ponto de vista científico. O Aplysia não tem sentimentos como nós, mas tem qualquer coisa que não é dissemelhante das emoções.

Dor e prazer fazem parte de duas genealogias diferentes da regulação vital. A dor está alinhada com o castigo e associada com comportamentos como o recuo e a imobilização. O prazer está alinhado com a recompensa e associado a comportamentos como a curiosidade, a procura e a aproximação.

O castigo leva os organismos a fecharem-se sobre si mesmos, imobilizando-se e retraindo-se do seu meio ambiente. A recompensa leva os organismos a abrirem-se para o exterior, explorando os seus limites e, ao fazê-lo, aumentando simultaneamente, tanto a sua capacidade de sobrevivência, como a sua vulnerabilidade.
Esta dualidade fundamental é manifesta numa criatura tão simples e tão não-consciente como a anémona-do-mar. A essência da alegria e da tristeza, da aproximação e da fuga, da vulnerabilidade e da segurança, são visíveis na simples dicotomia do seu comportamento.


Bibliografia: Damásio, António (2000), O Sentimento de Si - O Corpo, a Emoção e a Neurobiologia da Consciência, Publicações Europa-América.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Caixa de primeiros socorros para patudos

Os patudos devem ter uma caixa de primeiros socorros específica para eles. 
A caixa em si deve ser rígida, de forma a proteger o conteúdo de impactos. 
No seu interior deverá estar:
  • Boletim de vacinas do patudo
  • Toalhitas com álcool ou frasco de álcool (para desinfetar as mãos e o material)
  • Água oxigenada
  • Frasco com soro fisiológico (para limpar as feridas, os olhos, etc)
  • Tesoura de pontas rombas (para evitar acidentes aquando da sua utilização)
  • Rolo de adesivo
  • Ligadura elástica
  • Pinça (para remover parasitas)
  • Luvas de borracha
  • Compressas esterilizadas (para limpar feridas, realizar compressão)
  • Termómetro
  • Manta isotérmica (face dourada para cima protege do frio; face prateada para cima protege do calor)
  • Caneta/lápis de nitrato de prata (para estancar pequenas hemorragias)
                                                   Caixa de primeiros socorros do Pinóquio

sábado, 12 de julho de 2014

Pelo meu mundo... Como tudo começou!

Eu sou o cão Pinóquio e nasci há cerca de 5 anos, algures pelos arredores da Lourinhã.
Não me lembro lá muito bem dos tempos anteriores à minha entrada no canil da Associação...
Tenho vagas recordações dos meus pais caninos, Border Collies de raça, e dos meus irmãos que, não sei bem porquê, eram muito maiores que eu.
Viviamos numa quinta com muita relva verde, muito sol e outros animais, incluindo os humanos que tomavam conta de nós.

Quando eu tinha cerca de 4 meses, lembro-me de ouvir os humanos dizerem que como eu era "anecas" não podia continuar ali. *Será que me chamaram Anecas por eu ser assim pequenino?* No dia seguinte, levaram-me a dar uma volta numa coisa de metal com rodas e eu fiquei todo contente por ir passear fora da quinta onde vivia... mas pouco tempo depois chegamos... ao canil. Deixaram-me lá e nunca mais os vi.

No canil a vida era bem diferente, não havia relva verde, nem muito sol, mas na minha box estavam mais 3 patudos muito simpáticos: uma galgo whippet, chamada Velocity, já reformada das corridas de galgos; um pitbull, chamado Brutus, cheio de cicatrizes no focinho e muito bonacheirão; e o Lucky que só tinha 3 patas, mas pulava e corria como qualquer um de nós.

Quando havia visitas humanas no canil ficavamos todos muito contentes, pois já me tinham explicado que esses dias significavam a possibilidade de voltar a ter uma família humana com quem brincar e passear, e uma casa nova, quentinha, cheia de biscoitos e brinquedos.

Num desses dias, apareceu um humano com ar sorridente e sereno que, depois de passar por várias box, ficou um bom tempo a olhar para mim. Eu recuei assustado.
*Pessoas desconhecidas metem-me medo, não sei bem porquê, não me consigo lembrar. Também me assusto com sombras que aparecem de repente e tenho pânico de bolas de futebol*
Apesar do susto, tentei aproximar-me de novo, pois algo me dizia que aquele humano - o John - não me ia fazer mal. Ele pegou em mim ao colo, disse que queria ficar comigo e que a filha dele, com 4 aninhos, ia ficar muito contente de me ver. O John perguntou como eu me chamava, mas eu não tinha a certeza de o meu nome ser Anecas e então não disse nada.

Despedi-me dos meus melhores amigos Velocity, Brutus e Lucky, com pena de não poderem vir também comigo, e lá fui eu para a minha nova casa, ansioso por conhecer a minha nova família. Como será tudo?

(Continua...)

Pinóquio.